sexta-feira, 2 de outubro de 2026

A SOMA DOS DIAS: SOFRIMENTO E PERSEVERANÇA


* Resenha para o Clube de Leitura Bons Casmurros.


    "A soma dos dias", de Isabel Allende, é um livro duro. "Tínhamos a sensação de estar sempre no meio de um temporal, segurando as portas e janelas para que o vento da desgraça não arrase com tudo". Trata-se de uma obra de memórias, escrita pela autora para atualizar sua filha falecida sobre as ocorrências do cotidiano familiar após sua partida. O trecho citado traduz não só a sensação de Isabel, mas o tom e conteúdo do texto, incluindo a experiência de leitura.

    O livro é um desabafo de uma pessoa em sofrimento genuíno, como um compilado de sessões de terapia nas quais o paciente revela tudo que o foco negativo é capaz de captar. Não é que não tenha ocorrido coisas ruins, pelo contrário, elas jorram abundantemente. Contudo, há uma tendência da autora em enfatizar tais pontos e negligenciar outros. Cada pequeno detalhe de sofrimento cotidiano, do mofo na parede até os 11 de setembro (os dois, de 2001 nos EUA e de 1973 no Chile), é colocado nas páginas do livro. Até um dos capítulos mais bonitos, sobre os livros a serem escritos para os netos, acaba turvado pela vicissitude e vômitos esbranquiçados após ingestão de ayahuasca. Cada personagem, por sua vez, vive dramas sérios, todos descritos na obra: dr0g4s, traição, doença, desaparecimento, 3sp4nc4ment0, roubo, acidentes, m0rt3, tem de tudo.

    Após as 300 primeiras páginas, Isabel muda: é possível perceber um olhar mais leve e um relato até mesmo alegre sobre a família e seu trabalho como escritora, aproximando-se mais do tom das novidades contadas por uma mãe à filha. E é numa das últimas páginas que Isabel se faz entender: "me enjoa a ideia de escrever com uma mensagem positiva". Traiu-se, pois findou por deixar uma, belíssima: "se a gente esbanja paciência com uma criança de 2 anos, não há razão para economizá-la com uma anciã de 80". Eu recuperei a minha com o livro.


 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

FIM DA INFÂNCIA E FIM DO MUNDO: OS MENINOS DA RUA PAULO

     

  



    "Infância" é um constructo, sujeito às influências de contextos filogenéticos, históricos, sociais e individuais. Para muitos, contudo, ela é uma crença numa certeza, de que sempre foi assim, ou assado. É preciso cuidar para não cometer anacronismos ao ler "Os meninos da rua Paulo", de Ferenc Molnár, publicado pela primeira vez em 1907, sobre uma história que se passa em 1889, em Budapeste, na Hungria. Aquelas crianças, ou adolescentes, não eram as nossas. A realidade histórica, econômica, psicológica, biológica, social e cultural, não era a nossa. E, a propósito, em muitos pontos, eles tinham vantagens que a turma de hoje não têm mais.

    O livro narra as vivências de dois grupos de meninos, ora na escola, ora livres pelas ruas, brincando, pensando, representando, sentindo, sofrendo, lutando, imaginando, em suma, agindo no mundo com o corpo inteiro, cara à cara com o outro, algo muito diferente da nossa realidade hoje, em 2026. Como diz o psicólogo Johnatan Haidt, em Geração Ansiosa, a infância agora é marcada pelo: 

  • 1) fim do espaço livre para brincar, sem atividades pré-determinadas; 
  • 2) fim do jogo longe da supervisão de um adulto; 
  • 3) fim do tempo passado entre os de mesma idade; 
  • 4) fim da interação corporificada - substituida pela mediada pela máquina, computador, smarthphone, etc; 
  • 5) fim da socialização sincronizada, cara à cara, substituida pela teleguiada, permeada por likes, memes, links, jogos digitais, mídias em geral.

     Essas observações vão de acordo com as críticas do filósofo Paul Preciado que, em Dysphoria Mundi, alerta para os efeitos da digitalização virial forçada pela pandemia de COVID-19, e da privatização e disposição para o consumo de todos os espaços e atividades humanas. Segundo ele, o mundo capitalista, na pandemia, invadiu também o espaço doméstico, eliminando um dos últimos redutos relativamente livres de produção (de certas pessoas). A criança que está em casa não está livre de aulas e atividades na televida. Podemos adcionar Byung Chul-Han na discussão, para decretar o fim da festa e o fim do mundo, mas não é necessário. Basta fechar o livro de Molnár e olhar atentamente ao redor.

    O impacto da perda do espaço livre, sem supervisão é, em primeiro lugar, a denúncia do avanço de um mundo adulto ecocida, como diz Preciado. Matas e bosques se tornam pesqueiros, pesqueiros se tornam condomínios e terrenos livres passam a exigir a compra de ingressos para serem frequentados. Parques esses que, como em Curitiba, recentemente, foram alagados pelas garras da destruição ambiental perpetuada pela humanidade. Em segundo lugar, é a indisponibilidade do espaço-tempo de ser livre no mundo, que impede a criança de se conhecer e se desenvolver como corpo inteiro, em contato direto com o outro e com a natureza. Diz o filósofo, a sociedade do século XXII terá que lutar pra iniciar uma vida fora do digital, pois essa realidade está sendo descosturada de nossa pele nesse exato momento. 

     A criança e o adolescente, principalmente de 2010 para cá, está se moldando, se conhecendo e experiementando o mundo a partir do quarto, através das telas, a quilômentros de distância dos seus iguais, rodeada por adultos, cumprindo agenda de atividade pré-determinadas, marcadas por relação de consumo e que tem por objetivo a sua futura performance como adulto. As brincadeiras de Boka, da rua Paulo, poderiam levá-lo a ocupar cargo similar quando adulto, mas não havia ninguém pré-determinando isso diretamente. Já o inglês, a computação, o judô, a pintura, tudo isso atende à performance, especificamente. A Sociedade do Cansaço começa na concepção, ou bem antes.

     E não é de hoje. Haidt afirma que o tempo das crianças e adolescentes entre si, sem supervisão, vem diminuindo desde à decada de 80, devido a insegurança social e outros fatores. É fácil observar, em qualquer parque, que a quantidade de crianças cercadas por adultos é enorme. São pais e mães, muitas vezes esgotados, que levam seus filhos pra passear nas poucas horas vagas disponíveis, em espaços com prazo de validade que podem sumir a qualquer momento. O mundo, em perpétua e acelerada mudança, não pode parar de produzir, mesmo que isso significa o fim absoluto.

    Todas essas questões marcavam e marcam a vida dos pequenos, inclusive os das meninas, não citadas no livro, mas nem por isso ausentes. Basta ler nas entrelinhas, complementar a visão com outros dados e obras pra perceber como essa falta aparente exemplifica o que acontecia, e segue acontecendo, com a vida das pessoas de corpos menores, racializados, estrangeirizados, ilegalizados, genderizados, sexualizados, etc. Canta, Black Sabbath: "Children of the Grave (...), can they win the fight for peace, or will they disappear?". Os da rua Paulo, com certeza, lamentariam. 

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A CIDADE E A CRÔNICA AUSÊNCIA DE SILÊNCIO

    Estou num "têmenos", um espaço sagrado, circunscrito e circunspecto, protegido, seguro, em paz em meio ao caos externo. Mas eis que bate-se uma porta, derruba-se um objeto no chão, uma máquina ruge e, assim, a barreira contra as ondas sonoras se desfaz. O silêncio abandonou a cidade. Foi expulso pelo todo poderoso barulho.

    Comecei falando da clínica, pois foi justamente num contexto parecido que me veio essa bronca. Antigamente, consultórios e até laboratórios eram lugares tão silenciosos que possibilitavam o relaxamento - dependendo da especialidade e da queixa. Como nas bibliotecas, haviam placas de incentivo ao silêncio. Isso acabou.

    Agora as salas de espera, recepção e atendimento estão tumultuadas pelo ruído do caos: furadeiras fazendo reparos, carros de limpeza quicando nos rejuntes, tvs passando a tragédia do momento, pessoas conversando em voz alta com seus acompanhantes, colegas de trabalho vociferando, clientes gritando atrás das placas de acrílico, anti-vírus e pró-som, áudios de zapzap, de reels...só falta (às vezes não!) o gemidão.

    A coisa berra ao pé do ouvido: se na área da saúde as coisas estão assim, imagina nas demais!


Bom , eu aprendi a acordar um pouco antes da hora, pra fechar o vidro interno da minha janela, pra evitar ser acordado antes da hora pelo barulho da rua. O silêncio abandonou a cidade e não promete voltar.

* Dedico esse texto ao motociclista que, há anos, acorda nossa rua, diária e religiosamente, às 7:15, com seu escape ruidoso.



sábado, 23 de maio de 2026

SUMIÇO NA TERAPIA: BANQUETE DE AUTOCONHECIMENTO

    Como você termina ou suspende sua psicoterapia? Você conversa com o psicólogo durante a sessão, ou evita esse contato e envia mensagem de texto em cima da hora? Você expressa sua decisão, ou apenas some, sem dar satisfação? Não há julgamento aqui. Eu também já suspendi processos psicoterapêuticos de várias maneiras. No entanto, isso pode dizer algo sobre nós mesmos, servindo um excelente banquete de autoconhecimento. Aqui eu te chamo pra análise e pra reflexão desta importante questão. 

Comportamento alvo clinicamente relevante (CRB1) é o nome que nós, analistas do comportamento, damos para as respostas comportamentais presentes nas queixas dos pacientes, que aparecem dentro do processo psicoterapêutico. Explico: Maria queixa-se de que as pessoas não prestam atenção no que fala, afirmando que a sua voz é baixa e tediosa; durante a sessão, o psicólogo se esforça pra ouvir e manter a atenção na fala de Maria. Nesse caso, a voz baixa e a fala tediosa, presentes na queixa, estão se manifestando na sessão, sendo, portanto, um CRB1. Conseguiu fazer uma ponte com sua conduta? Então pergunto: a forma que você interrompe ou encerra sua psicoterapia é um exemplo de algum comportamento que tem te trazido dificuldades? 

Talvez ela denote:

  1. Dificuldade de lidar com a raiva e a frustração
  2. Passividade e falta de assertividade
  3. Dificuldade em identificar e expressar o que sente
  4. Baixa autoestima e desesperança
  5. Impulsividade e instabilidade
  6. Quebra de confiança e na relação terapêutica
  7. Dificuldades na tomada de decisões e resolução de problemas

    Em suma, talvez ela seja a manifestação dos sintomas do seu quadro e esteja se repetindo em diversas outras áreas da sua vida. 

Reflita aí.

    Por que pensar sobre isso? Para aprofundar o trabalho no retorno, ou numa próxima. Saber a forma e função do seu comportamento é, em suma, parte do processo psicoterapêutico. Dessa maneira, analisar seu modo de suspender ou encerrar a psicoterapia é, em si, um ato coerente com o próprio processo clínico, que pode possibilitar a sua mudança e evolução. Maria, por exemplo, pode se sentir não ouvida pelo seu psicólogo e encerrar o processo simplesmente sumindo. Ao analisar a questão, ela pode perceber que já fez isso antes, tendo frequentemente sumido de amizades, namoros e até de empregos. De posse disso, Maria pode voltar pra sessão e abordar o assunto com o profissional, buscando transformar o problema. 

Então, quem sabe esse olhar também possa te servir de escada para a melhora. Claro, existem ainda outros aspectos envolvidos nessa complexa questão, que não foram alvo do nosso encontro aqui, como a relação psicoterapêutica e os comportamentos clinicamente relevantes por parte do próprio psicoterapeuta. Isso, fica pra próxima. No mais, siga o preceito do sábio: "conhece-te a ti mesmo". 

    Gostou? Fez sentido? Comente e compartilhe nas redes com seus amigos e familiares. Em breve, volto com mais ideias para pensarmos juntos. 

    Caso queira agendar uma sessão, procure-me nas redes: @psimauriciomendonca (instagram) e nos links de agendamento. Forte abraço.



quarta-feira, 29 de junho de 2016

COMO NÃO VIVER DE ARTE


por Maurício Mendonça*


Você está afim de arruinar sua carreira artística? Você quer confirmar aquela baboseira de que arte não da futuro? Quer passar a vida atrás de um balcão de loja? Então confira 10 dicas infalíveis pra realizar seu sonho.



1 - NÃO SEJA PROFISSIONAL

Não tenha cartão de visita, descarte profissionais de artes visuais e gráficas para fazer seus panfletos (na verdade, não faça panfleto!), não tenha uma logo marca, evite todo e qualquer tipo de planejamento, seja desorganizado e pouco objetivo, não trace metas, demore para atender o cliente, negocie apenas através de redes sociais, evite telefone e contato direto com o cliente, atrase a entrega do produto, discuta, irrite e brigue com o cliente, falte e atrase aos compromissos, trate toda sua arte feito uma coisa qualquer levada nas coxas e no improviso. Ao atender o telefone diga "alô", "oi", "e aí", ou melhor, diga "FALA".

2 - NÃO CATIVE AS PESSOAS

Faça questão de mostrar para toda e qualquer pessoa, seja seu cliente ou contratante, amigo ou inimigo, que você é superior; coloque suas necessidades sempre em primeiro lugar; evite responder saudações simples como "bom dia", "boa tarde" e "boa noite"; jamais expresse agradecimento para o contratante ou cliente, pois é óbvio que eles deveriam agradecer pelo privilégio de ter um artista como você "fazendo um favor" a eles; não dê nada de graça; não ajude ninguém; erre, prejudique as pessoas e de jeito nenhum assuma suas faltas, nem se desculpe; deboche da palavra "networking"; faça questão de estar sempre certo; não aceite convites para comparecer em eventos; desprestigie a arte dos outros; não desenvolva parcerias, viva sozinho, pois sua genialidade já te basta.

3 - NÃO DOMINE SUA ARTE

Permaneça estagnado naquele pouquinho de coisa que sabe sobre sua arte; não estude, não pratique, não faça aulas; tire sarro dos artistas que buscam evoluir através do estudo e da pesquisa; faça tudo de qualquer jeito; ignore e desrespeite as regras básicas e estabelecidas da sua arte, principalmente quando você não tiver gênio suficiente para inovar sem se queimar, ou sem ofender; saiba o menos possível sobre tudo que gire em torno da sua arte; fale, faça e ensine muita coisa errada.

4 - NÃO MOSTRE SEU TRABALHO

Fique com seu saber superior e sua técnica divina isolado em seu santuário sagrado: o quarto. Não se exponha, não mostre seu trabalho, evite eventos, evite jams, fuja de exposições, não faça evento gratuito para divulgar seu trabalho, ou, pelo contrário, toque sempre de graça, desvalorizando e sabotando a manutenção do seu trabalho; use as redes sociais pra mostrar seus pratos de comidas, arrumar briga, ou destilar seu ódio e incoerência.     

5 - NÃO ASSOCIE SEU TRABALHO COM COISAS POSITIVAS

Queime seu nome e seu trabalho associando-o a todo e qualquer tipo de coisa negativa que passar pela frente; use as redes sociais para ser um elemento estressor na vida das pessoas, postando coisa ruim e agressivas dia e noite, associando seu nome, marca e trabalho com algo do qual as pessoas vão querer fugir.

6 - NÃO CONHEÇA SEU CLIENTE

Não procure saber e memorizar o nome do cliente, chame-o de "ô", "amiguinho", "amigão", "colega", "fera"; fale o nome errado da cidade onde está se apresentando; escreva errado o nome das pessoas, empresas e marcas na internet, em documentos, etc; desconsidere totalmente as necessidades, expectativas e problemas do cliente (lembre-se de se colocar sempre em primeiro lugar); jamais adeque sua arte ao seu público alvo, ignore idade, sexo, fatores sociais em geral.

7 - NÃO SEJA CONFIÁVEL

Deixe bem claro para todos que eles não devem confiar em você e faça isso sendo irresponsável, mentiroso, tratante, sem compromisso, atrasando desde o ensaio até a entrega do produto, faltando em eventos, sumindo com o dinheiro do cliente, vendendo uma coisa e entregando outra.

8 - NÃO DEIXE DE ATACAR OS COLEGAS

Aproveite o momento que está com o contratante, com o cliente, com os amigos e com os inimigos para falar mal de todos os grupos, bandas, promotores, empresários e marcas que você conhece em sua região; se você tiver alunos, fale mal de um aluno pra outro, critique tudo e todos pra eles; use as redes sociais pra criticar tudo que puder; estabeleça uma classe superior a qual você pertence e coloque todos os outros na outra classe, a inferior; se você for graduado, ridicularize e invalide o trabalho dos não-graduados; se você não for graduado, faça a mesma coisa com os graduados; jamais apareça num evento de outro artista, não curta e nem compartilhe sua arte; nunca divulgue o evento de outro artista; critique seus mestres.

9 - NÃO INVISTA TEMPO E DINHEIRO

Use seu dinheiro pra tomar cachaça. Não invista em novos e melhores equipamentos, nem em imagem pessoal, nem em aprimoramento artístico e profissional, nem em mídia, nem em layout, em nada. E faça um favor, mande vídeos e fotos toscas, de uma arte meia boca, para possíveis patrocinadores, assim construindo uma imagem negativa junto a eles que dificilmente vai superar no futuro.


10 - NÃO TENHA HABILIDADES EM VENDAS, MARKETING E PSICOLOGIA

Você é um artista revolucionário e vive num mundo mágico da sua genial imaginação, por isso não aprenda técnicas de atendimento ao cliente, nem de como vender seu trabalho; faça divulgações de qualquer jeito; mande as técnicas psicológicas embora, pois você é o cara e o governo ou as empresas têm que te bancar; e tem mais uma, você não precisa saber vender, pois só as pessoas superiores reconhecerão o valor da sua arte; elas vão te prestigiar, os demais você nem faz questão.

É isso. Aplique esses 10 passos todos os dias da sua vida, em qualquer contexto, e você nunca viverá de arte. Você tem algumas dessas características? Bora mudar? Caso queira ter sucesso em sua carreira, basta imprimir esse artigo, colar na parede e todo dia agir exatamente ao contrário de cada uma dessas dicas. Gostou? Comente mais dicas para se dar mal, compartilhe à vontade. Abraço do Mau!!!


* Maurício Mendonça é baterista desde 97, professor de bateria e bacharel em Psicologia. Já atuou como ator, animador de festas infantis, iluminador, sonoplasta e vendedor.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

O ESTUDO DA MÚSICA E O AUMENTO DA CONCENTRAÇÃO


Por Maurício Mendonça*


     A música em si traz ganhos únicos para a alma, enquanto expressão artística de ideias, sentimentos, sensações e intuições humanas. Também é uma das raras atividades estimuladoras da quase totalidade do cérebro. A bateria, especificamente, é praticamente um esporte e estimula movimentos de quase todos os membros e grupos musculares do nosso corpo. Sempre digo aos meus alunos que a bateria deveria ser considerada esporte olímpico! Brincadeiras à parte, o estudo da música também traz benefícios psicológicos significativos e, em comemoração ao 04 de Junho, Dia Nacional do Ensino da Música, escreverei sobre um deles: o aumento da concentração. Para tal, usarei o meu instrumento, a bateria, como exemplo.
               
        A quantidade enorme de estímulos e obrigações do nosso dia à dia gera uma fragmentação da atenção que nos "rouba" contato com o aqui-e-agora.

       Pra piorar, a forma como usamos celulares, tablets e redes sociais têm contribuído muito para esse problema. A bateria, ao contrário, trabalha o uso dos membros corporais e exige tamanha atenção para o aprendizado e correta execução dos exercícios que funciona quase como uma prática zen de desenvolvimento da atenção plena (capacidade de concentração inabalável no aqui-e-agora). A distração comumente faz o aluno errar o que está tentando tocar, assim, ele experimenta e aprende de modo prático (não só verbal) que a lição exige foco total. À medida que ele obtém sucesso, a correta execução do exercício funciona como um reforçador positivo (ganho) da concentração, fortalecendo-a. A tendência, portanto, é que sua capacidade de concentração aumente e se generalize para outras áreas da sua vida. Isso, é claro, vale também para os outros instrumentos.

      Um exemplo de dificuldade de concentração. Tive um aluno que sempre errava os exercícios lá pela terceira repetição. Tocava e parava, sem constância. Isso acontecia com todo exercício, mas não por falta de habilidade. 
    
     O conhecimento psicológico me possibilitou perceber que o erro funcionava como uma estratégia comportamental (nem sempre consciente) de interrupção do treino.

Observando o aluno enquanto ele tocava, vi que seu olhar não parava; ele movimentava a cabeça para todas as direções. Não estava concentrado, pra dizer o mínimo. Para resolver a situação, estipulei um número mínimo de repetições que ele deveria executar sem parar antes de poder avançar para um novo exercício. Assim, o novo exercício seria o reforço positivo da concentração. O aluno impaciente sempre quer avançar, ainda que tropeçando, então estipular regras educa o comportamento ansioso, reforçando o foco e gerando paciência. Com poucas aulas ele passou não só a tocar os exercícios sem interrupções, como passou a errar menos e tem avançado de modo mais rápido, pois está mais concentrado.

    Num caso assim, o professor pode tomar o problema pra si, achando que sua aula é chata, ou que não é um bom professor;

ou pode ver o aluno como um problema, desenvolvendo uma antipatia por ele e afetando negativamente o relacionamento com o mesmo e com o trabalho. Pior ainda, o aluno e os pais podem agir assim. Aí é preciso levar em conta que a atenção e a concentração são em parte inatas, mas em parte maior são habilidades aprendidas e desenvolvidas ao longo da nossa vida. Antes do aluno de música chegar até o educador ele já passou por milhares de experiências em sua vida e desenvolveu comportamentos que podem facilitar ou dificultar o seu trabalho. A concentração é um desses comportamentos.

     Quando o aluno não aprendeu a se concentrar de modo adequado, a missão do educador é ensinar e fortalecer essa nova habilidade, contudo, para isso, precisa da parceira do estudante e dos pais.

  A música figura como uma das melhores ferramentas para desenvolvimento de várias habilidades psicológicas.

A prova disso é o fato de muitos psicólogos usarem a música em seus consultórios para desenvolver a atenção, concentração, memória, melhorar o aprendizado, trabalhar conteúdos emocionais, etc. Ouvir, entender, aprender e executar uma frase musical, por mais simples que seja, exige atenção e, por isso, funciona como um excelente treino de manutenção da concentração. Indico que o educador, sempre que possível, converse com o aluno e com os pais, de modo leve e positivo (nunca estigmatizando), desenvolvendo neles a consciência à respeito de habilidades que necessitam aprimoramento. Novamente, estudar música não só exige, como desenvolve a concentração.

*Maurício Mendonça é professor de bateria, instrumento que toca desde 1997, e bacharel em Psicologia.

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segunda-feira, 23 de maio de 2016

NICK MENZA: SUA IMPORTÂNCIA PARA O MUNDO DA BATERIA



      A triste notícia do falecimento precoce desse grande baterista, em 21/05, chegou ao grande  público pelas mãos de Dave Mustaine. O líder do Megadeth manifestou que termos como "devastado" não fazia jus aos seus sentimentos sobre o ocorrido. Eu, particularmente, também fiquei bastante triste com isso, pois Menza é, desde 1997, uma das minhas três maiores influências na bateria. Ainda me lembro quando sonhava em um dia tocar músicas como "A Tout Le Monde", "Killing Road", "Symphony of Destruction" e do quanto fiquei em êxtase quando essas e outras canções tocadas por ele entraram no set list da minha primeira banda, o Awake. CDs, camisetas, revistas, posters na parede de casa e do estúdio, éramos fanáticos por Megadeth e eu por Nick Menza. Hoje, passado quase 20 anos, ainda vivo a mesma história. Passei os últimos meses estudando e aprendendo as músicas de Menza e sendo influenciado pelo seu projeto de rock fusion, o OHM. O que me fez continuar a ser fan e a ser influenciado por ele foi a compreensão maior, que passei a ter da sua arte com o passar do tempo. Então aqui quero escrever um pequeno tributo a esse mestre, falando sobre sua importância no mundo da bateria.

     Menza fez parte da formação clássica do Megadeth, de 1989 a 1998, sendo o responsável pelos grooves de discos importantíssimos para a história do Metal, como Rust In Peace (1990), Countdown to Extinction (1992), Youthanasia (1994) e Cryptic Writings (1997). Através desses discos fez com que muita gente passasse a estudar bateria, frequentar aulas, adquirir instrumentos e produzir arte. Ainda lembro de quando ele, Ian Paice (Deep Purple) e Vinnie Paul (ex-Pantera) figuravam nas propagandas da Pearl, ou da Zildjan em revistas como Modern Drummer Brasi. No entanto, Menza é um daqueles bateristas que tocam com personalidade e mesmo num estilo como o Thrash Metal, no qual muitos músicos tendem a soar iguais, ele imprimiu um jeito muito seu de tocar, injetando criatividade e destacando-se assim como Dave Lombardo (Slayer), Lars Ulrich no Master of Puppets, Vinnie Paul, Gene Hoglan (Dark Angel, Death, Testament), entre outros. Menza colocou a bateria do Megadeth num outro patamar, também estimulando mudanças em muitas outras bandas. Esses discos não seriam clássicos sem sua arte.

        Em suas composições, Menza não se limitava às levadas típicas do Thrash, com linhas retas e viradas rápidas e às vezes simples. Ele criava grooves fantásticos, com belas e poderosas figuras nos bumbos, viradas matadoras em vários tempos, como acentuações, flans, paradiddles, síncopas. Exemplos: as frases usando os tons, surdos e dois bumbos durante os solos de Hangar 18; a introdução matadora, as linhas de dois bumbos incríveis seguindo as guitarras, o trabalho da mão direita no ride, as levadas quebradas antes do solo de Rust In Peace...Polaris; o trabalho de chimbal, condução e crash de Five Magics; o trabalho de bumbo e caixa de Take No Prisioners, umas das introduções mais matadoras da batera metálica. Rust In Peace é um baile de bateria, do começo ao fim. Um disco essencial para quem quer tocar Metal. 

        Os discos posteriores não ficam atrás. "Countdown..." possui viradas incríveis, como a introdução em sextina distribuídas entre mãos e bumbos em Skin O´ My Teeth, mudança de ritmo durante a música, como em Symphony of Destruction, trabalhos fantásticos de bumbo, etc. Youthanasia e Cryptic Writings representam uma mudança significativa no estilo de composição do Megadeth, principalmente o último. A banda passou a compor músicas mais cadenciadas e Nick Menza aproveitou para voar baixo criando grooves formidáveis, como em Reckoning Day. Escute Train Of Consequences e deleite-se com uma aula magistral de como se tocar Metal de forma pesada, mas com um groove digno de fazer James Brown tirar o chapéu, o sapato e a cueca.  Até a balada, A Tout Le Monde, apresenta uma bateria que desvia do básico, para presentear o ouvinte com outra aula de musicalidade através de coisas simples, aplicadas de forma genial - vide as viradas pré-refrão. 

     É possível reconhecer figuras de outros estilos musicais em suas composições com certa facilidade, como frases de bumbo características do funk norte-americano, influencias de jazz, rock clássico, entre outros. Menza era filho de Don Menza, um lendário saxofonista de jazz que tocou com ninguém menos do que Buddy Rich que, segundo Neil Peart, foi o maior baterista de todos os tempos. Por aí podemos tirar as influências do menino. Sua morte representa uma perda enorme para o mundo da bateria. 

       Menza nunca foi um rock star, que faz do instrumento uma muleta pra droga, sexo e dinheiro. Ele foi um verdadeiro músico. Fora o passado, no qual gravou com outras pessoas, entre elas, diz-se, com John Fogerty, também participou de três discos solos do guitarrista Marty Friedman, dedicou-se a música instrumental com o OHM, fez workshops, esteve em feiras de música, se envolveu na criação de produtos como as baquetas luminosas que seriam lançadas no mês de Junho de 2016, ou seja, viveu o instrumento e deixou um legado importantíssimo que entrou para a história do Heavy-Metal e da bateria.  Superou um câncer no joelho, mas tombou diante de um infarto enquanto tocava seu instrumento, em pleno palco. 

      Além de toda essa musicalidade, Menza era um showman das baquetas. Velocidade e força fazem muitos bateras de Metal tocar parados, às vezes sem expressão. Menza, não!!! Tocava dançando, como Ian Paice, batendo cabeça, erguendo braços, levantando-se no kit para agitar a galera em performances repletas de energia e dignas do mestre Keith Moon. 

     Eu queria ter tido a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Aí então eu agradeceria por ele ter me inspirado a começar algo que tanto enriquece minha existência. Quem sabe um dia! Obrigado mestre!

NICK MENZA 
23/06/1964 - 21/05/2016