
A triste notícia do falecimento precoce desse grande baterista, em 21/05, chegou ao grande público pelas mãos de Dave Mustaine. O líder do Megadeth manifestou que termos como "devastado" não fazia jus aos seus sentimentos sobre o ocorrido. Eu, particularmente, também fiquei bastante triste com isso, pois Menza é, desde 1997, uma das minhas três maiores influências na bateria. Ainda me lembro quando sonhava em um dia tocar músicas como "A Tout Le Monde", "Killing Road", "Symphony of Destruction" e do quanto fiquei em êxtase quando essas e outras canções tocadas por ele entraram no set list da minha primeira banda, o Awake. CDs, camisetas, revistas, posters na parede de casa e do estúdio, éramos fanáticos por Megadeth e eu por Nick Menza. Hoje, passado quase 20 anos, ainda vivo a mesma história. Passei os últimos meses estudando e aprendendo as músicas de Menza e sendo influenciado pelo seu projeto de rock fusion, o OHM. O que me fez continuar a ser fan e a ser influenciado por ele foi a compreensão maior, que passei a ter da sua arte com o passar do tempo. Então aqui quero escrever um pequeno tributo a esse mestre, falando sobre sua importância no mundo da bateria.
Menza fez parte da formação clássica do Megadeth, de 1989 a 1998, sendo o responsável pelos grooves de discos importantíssimos para a história do Metal, como Rust In Peace (1990), Countdown to Extinction (1992), Youthanasia (1994) e Cryptic Writings (1997). Através desses discos fez com que muita gente passasse a estudar bateria, frequentar aulas, adquirir instrumentos e produzir arte. Ainda lembro de quando ele, Ian Paice (Deep Purple) e Vinnie Paul (ex-Pantera) figuravam nas propagandas da Pearl, ou da Zildjan em revistas como Modern Drummer Brasi. No entanto, Menza é um daqueles bateristas que tocam com personalidade e mesmo num estilo como o Thrash Metal, no qual muitos músicos tendem a soar iguais, ele imprimiu um jeito muito seu de tocar, injetando criatividade e destacando-se assim como Dave Lombardo (Slayer), Lars Ulrich no Master of Puppets, Vinnie Paul, Gene Hoglan (Dark Angel, Death, Testament), entre outros. Menza colocou a bateria do Megadeth num outro patamar, também estimulando mudanças em muitas outras bandas. Esses discos não seriam clássicos sem sua arte.
Em suas composições, Menza não se limitava às levadas típicas do Thrash, com linhas retas e viradas rápidas e às vezes simples. Ele criava grooves fantásticos, com belas e poderosas figuras nos bumbos, viradas matadoras em vários tempos, como acentuações, flans, paradiddles, síncopas. Exemplos: as frases usando os tons, surdos e dois bumbos durante os solos de Hangar 18; a introdução matadora, as linhas de dois bumbos incríveis seguindo as guitarras, o trabalho da mão direita no ride, as levadas quebradas antes do solo de Rust In Peace...Polaris; o trabalho de chimbal, condução e crash de Five Magics; o trabalho de bumbo e caixa de Take No Prisioners, umas das introduções mais matadoras da batera metálica. Rust In Peace é um baile de bateria, do começo ao fim. Um disco essencial para quem quer tocar Metal.
Os discos posteriores não ficam atrás. "Countdown..." possui viradas incríveis, como a introdução em sextina distribuídas entre mãos e bumbos em Skin O´ My Teeth, mudança de ritmo durante a música, como em Symphony of Destruction, trabalhos fantásticos de bumbo, etc. Youthanasia e Cryptic Writings representam uma mudança significativa no estilo de composição do Megadeth, principalmente o último. A banda passou a compor músicas mais cadenciadas e Nick Menza aproveitou para voar baixo criando grooves formidáveis, como em Reckoning Day. Escute Train Of Consequences e deleite-se com uma aula magistral de como se tocar Metal de forma pesada, mas com um groove digno de fazer James Brown tirar o chapéu, o sapato e a cueca. Até a balada, A Tout Le Monde, apresenta uma bateria que desvia do básico, para presentear o ouvinte com outra aula de musicalidade através de coisas simples, aplicadas de forma genial - vide as viradas pré-refrão.
É possível reconhecer figuras de outros estilos musicais em suas composições com certa facilidade, como frases de bumbo características do funk norte-americano, influencias de jazz, rock clássico, entre outros. Menza era filho de Don Menza, um lendário saxofonista de jazz que tocou com ninguém menos do que Buddy Rich que, segundo Neil Peart, foi o maior baterista de todos os tempos. Por aí podemos tirar as influências do menino. Sua morte representa uma perda enorme para o mundo da bateria.
Menza nunca foi um rock star, que faz do instrumento uma muleta pra droga, sexo e dinheiro. Ele foi um verdadeiro músico. Fora o passado, no qual gravou com outras pessoas, entre elas, diz-se, com John Fogerty, também participou de três discos solos do guitarrista Marty Friedman, dedicou-se a música instrumental com o OHM, fez workshops, esteve em feiras de música, se envolveu na criação de produtos como as baquetas luminosas que seriam lançadas no mês de Junho de 2016, ou seja, viveu o instrumento e deixou um legado importantíssimo que entrou para a história do Heavy-Metal e da bateria. Superou um câncer no joelho, mas tombou diante de um infarto enquanto tocava seu instrumento, em pleno palco.
Além de toda essa musicalidade, Menza era um showman das baquetas. Velocidade e força fazem muitos bateras de Metal tocar parados, às vezes sem expressão. Menza, não!!! Tocava dançando, como Ian Paice, batendo cabeça, erguendo braços, levantando-se no kit para agitar a galera em performances repletas de energia e dignas do mestre Keith Moon.
Eu queria ter tido a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Aí então eu agradeceria por ele ter me inspirado a começar algo que tanto enriquece minha existência. Quem sabe um dia! Obrigado mestre!
NICK MENZA
23/06/1964 - 21/05/2016