"Infância" é um constructo, sujeito às influências de contextos filogenéticos, históricos, sociais e individuais. Para muitos, contudo, ela é uma crença numa certeza, de que sempre foi assim, ou assado. É preciso cuidar para não cometer anacronismos ao ler "Os meninos da rua Paulo", de Ferenc Molnár, publicado pela primeira vez em 1907, sobre uma história que se passa em 1889, em Budapeste, na Hungria. Aquelas crianças, ou adolescentes, não eram as nossas. A realidade histórica, econômica, psicológica, biológica, social e cultural, não era a nossa. E, a propósito, em muitos pontos, eles tinham vantagens que a turma de hoje não têm mais.
O livro narra as vivências de dois grupos de meninos, ora na escola, ora livres pelas ruas, brincando, pensando, representando, sentindo, sofrendo, lutando, imaginando, em suma, agindo no mundo com o corpo inteiro, cara à cara com o outro, algo muito diferente da nossa realidade hoje, em 2026. Como diz o psicólogo Johnatan Haidt, em Geração Ansiosa, a infância agora é marcada pelo:
- 1) fim do espaço livre para brincar, sem atividades pré-determinadas;
- 2) fim do jogo longe da supervisão de um adulto;
- 3) fim do tempo passado entre os de mesma idade;
- 4) fim da interação corporificada - substituida pela mediada pela máquina, computador, smarthphone, etc;
- 5) fim da socialização sincronizada, cara à cara, substituida pela teleguiada, permeada por likes, memes, links, jogos digitais, mídias em geral.
Essas observações vão de acordo com as críticas do filósofo Paul Preciado que, em Dysphoria Mundi, alerta para os efeitos da digitalização virial forçada pela pandemia de COVID-19, e da privatização e disposição para o consumo de todos os espaços e atividades humanas. Segundo ele, o mundo capitalista, na pandemia, invadiu também o espaço doméstico, eliminando um dos últimos redutos relativamente livres de produção (de certas pessoas). A criança que está em casa não está livre de aulas e atividades na televida. Podemos adcionar Byung Chul-Han na discussão, para decretar o fim da festa e o fim do mundo, mas não é necessário. Basta fechar o livro de Molnár e olhar atentamente ao redor.
O impacto da perda do espaço livre, sem supervisão é, em primeiro lugar, a denúncia do avanço de um mundo adulto ecocida, como diz Preciado. Matas e bosques se tornam pesqueiros, pesqueiros se tornam condomínios e terrenos livres passam a exigir a compra de ingressos para serem frequentados. Parques esses que, como em Curitiba, recentemente, foram alagados pelas garras da destruição ambiental perpetuada pela humanidade. Em segundo lugar, é a indisponibilidade do espaço-tempo de ser livre no mundo, que impede a criança de se conhecer e se desenvolver como corpo inteiro, em contato direto com o outro e com a natureza. Diz o filósofo, a sociedade do século XXII terá que lutar pra iniciar uma vida fora do digital, pois essa realidade está sendo descosturada de nossa pele nesse exato momento.
A criança e o adolescente, principalmente de 2010 para cá, está se moldando, se conhecendo e experiementando o mundo a partir do quarto, através das telas, a quilômentros de distância dos seus iguais, rodeada por adultos, cumprindo agenda de atividade pré-determinadas, marcadas por relação de consumo e que tem por objetivo a sua futura performance como adulto. As brincadeiras de Boka, da rua Paulo, poderiam levá-lo a ocupar cargo similar quando adulto, mas não havia ninguém pré-determinando isso diretamente. Já o inglês, a computação, o judô, a pintura, tudo isso atende à performance, especificamente. A Sociedade do Cansaço começa na concepção, ou bem antes.
E não é de hoje. Haidt afirma que o tempo das crianças e adolescentes entre si, sem supervisão, vem diminuindo desde à decada de 80, devido a insegurança social e outros fatores. É fácil observar, em qualquer parque, que a quantidade de crianças cercadas por adultos é enorme. São pais e mães, muitas vezes esgotados, que levam seus filhos pra passear nas poucas horas vagas disponíveis, em espaços com prazo de validade que podem sumir a qualquer momento. O mundo, em perpétua e acelerada mudança, não pode parar de produzir, mesmo que isso significa o fim absoluto.
Todas essas questões marcavam e marcam a vida dos pequenos, inclusive os das meninas, não citadas no livro, mas nem por isso ausentes. Basta ler nas entrelinhas, complementar a visão com outros dados e obras pra perceber como essa falta aparente exemplifica o que acontecia, e segue acontecendo, com a vida das pessoas de corpos menores, racializados, estrangeirizados, ilegalizados, genderizados, sexualizados, etc. Canta, Black Sabbath: "Children of the Grave (...), can they win the fight for peace, or will they disappear?". Os da rua Paulo, com certeza, lamentariam.