sexta-feira, 2 de outubro de 2026

A SOMA DOS DIAS: SOFRIMENTO E PERSEVERANÇA


* Resenha para o Clube de Leitura Bons Casmurros.


    "A soma dos dias", de Isabel Allende, é um livro duro. "Tínhamos a sensação de estar sempre no meio de um temporal, segurando as portas e janelas para que o vento da desgraça não arrase com tudo". Trata-se de uma obra de memórias, escrita pela autora para atualizar sua filha falecida sobre as ocorrências do cotidiano familiar após sua partida. O trecho citado traduz não só a sensação de Isabel, mas o tom e conteúdo do texto, incluindo a experiência de leitura.

    O livro é um desabafo de uma pessoa em sofrimento genuíno, como um compilado de sessões de terapia nas quais o paciente revela tudo que o foco negativo é capaz de captar. Não é que não tenha ocorrido coisas ruins, pelo contrário, elas jorram abundantemente. Contudo, há uma tendência da autora em enfatizar tais pontos e negligenciar outros. Cada pequeno detalhe de sofrimento cotidiano, do mofo na parede até os 11 de setembro (os dois, de 2001 nos EUA e de 1973 no Chile), é colocado nas páginas do livro. Até um dos capítulos mais bonitos, sobre os livros a serem escritos para os netos, acaba turvado pela vicissitude e vômitos esbranquiçados após ingestão de ayahuasca. Cada personagem, por sua vez, vive dramas sérios, todos descritos na obra: dr0g4s, traição, doença, desaparecimento, 3sp4nc4ment0, roubo, acidentes, m0rt3, tem de tudo.

    Após as 300 primeiras páginas, Isabel muda: é possível perceber um olhar mais leve e um relato até mesmo alegre sobre a família e seu trabalho como escritora, aproximando-se mais do tom das novidades contadas por uma mãe à filha. E é numa das últimas páginas que Isabel se faz entender: "me enjoa a ideia de escrever com uma mensagem positiva". Traiu-se, pois findou por deixar uma, belíssima: "se a gente esbanja paciência com uma criança de 2 anos, não há razão para economizá-la com uma anciã de 80". Eu recuperei a minha com o livro.


 

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