Estou num "têmenos", um espaço sagrado, circunscrito e circunspecto, protegido, seguro, em paz em meio ao caos externo. Mas eis que bate-se uma porta, derruba-se um objeto no chão, uma máquina ruge e, assim, a barreira contra as ondas sonoras se desfaz. O silêncio abandonou a cidade. Foi expulso pelo todo poderoso barulho.
Comecei falando da clínica, pois foi justamente num contexto parecido que me veio essa bronca. Antigamente, consultórios e até laboratórios eram lugares tão silenciosos que possibilitavam o relaxamento - dependendo da especialidade e da queixa. Como nas bibliotecas, haviam placas de incentivo ao silêncio. Isso acabou.
Agora as salas de espera, recepção e atendimento estão tumultuadas pelo ruído do caos: furadeiras fazendo reparos, carros de limpeza quicando nos rejuntes, tvs passando a tragédia do momento, pessoas conversando em voz alta com seus acompanhantes, colegas de trabalho vociferando, clientes gritando atrás das placas de acrílico, anti-vírus e pró-som, áudios de zapzap, de reels...só falta (às vezes não!) o gemidão.
A coisa berra ao pé do ouvido: se na área da saúde as coisas estão assim, imagina nas demais!
Bom , eu aprendi a acordar um pouco antes da hora, pra fechar o vidro interno da minha janela, pra evitar ser acordado antes da hora pelo barulho da rua. O silêncio abandonou a cidade e não promete voltar.
* Dedico esse texto ao motociclista que, há anos, acorda nossa rua, diária e religiosamente, às 7:15, com seu escape ruidoso.

