quarta-feira, 29 de junho de 2016

COMO NÃO VIVER DE ARTE


por Maurício Mendonça*


Você está afim de arruinar sua carreira artística? Você quer confirmar aquela baboseira de que arte não da futuro? Quer passar a vida atrás de um balcão de loja? Então confira 10 dicas infalíveis pra realizar seu sonho.



1 - NÃO SEJA PROFISSIONAL

Não tenha cartão de visita, descarte profissionais de artes visuais e gráficas para fazer seus panfletos (na verdade, não faça panfleto!), não tenha uma logo marca, evite todo e qualquer tipo de planejamento, seja desorganizado e pouco objetivo, não trace metas, demore para atender o cliente, negocie apenas através de redes sociais, evite telefone e contato direto com o cliente, atrase a entrega do produto, discuta, irrite e brigue com o cliente, falte e atrase aos compromissos, trate toda sua arte feito uma coisa qualquer levada nas coxas e no improviso. Ao atender o telefone diga "alô", "oi", "e aí", ou melhor, diga "FALA".

2 - NÃO CATIVE AS PESSOAS

Faça questão de mostrar para toda e qualquer pessoa, seja seu cliente ou contratante, amigo ou inimigo, que você é superior; coloque suas necessidades sempre em primeiro lugar; evite responder saudações simples como "bom dia", "boa tarde" e "boa noite"; jamais expresse agradecimento para o contratante ou cliente, pois é óbvio que eles deveriam agradecer pelo privilégio de ter um artista como você "fazendo um favor" a eles; não dê nada de graça; não ajude ninguém; erre, prejudique as pessoas e de jeito nenhum assuma suas faltas, nem se desculpe; deboche da palavra "networking"; faça questão de estar sempre certo; não aceite convites para comparecer em eventos; desprestigie a arte dos outros; não desenvolva parcerias, viva sozinho, pois sua genialidade já te basta.

3 - NÃO DOMINE SUA ARTE

Permaneça estagnado naquele pouquinho de coisa que sabe sobre sua arte; não estude, não pratique, não faça aulas; tire sarro dos artistas que buscam evoluir através do estudo e da pesquisa; faça tudo de qualquer jeito; ignore e desrespeite as regras básicas e estabelecidas da sua arte, principalmente quando você não tiver gênio suficiente para inovar sem se queimar, ou sem ofender; saiba o menos possível sobre tudo que gire em torno da sua arte; fale, faça e ensine muita coisa errada.

4 - NÃO MOSTRE SEU TRABALHO

Fique com seu saber superior e sua técnica divina isolado em seu santuário sagrado: o quarto. Não se exponha, não mostre seu trabalho, evite eventos, evite jams, fuja de exposições, não faça evento gratuito para divulgar seu trabalho, ou, pelo contrário, toque sempre de graça, desvalorizando e sabotando a manutenção do seu trabalho; use as redes sociais pra mostrar seus pratos de comidas, arrumar briga, ou destilar seu ódio e incoerência.     

5 - NÃO ASSOCIE SEU TRABALHO COM COISAS POSITIVAS

Queime seu nome e seu trabalho associando-o a todo e qualquer tipo de coisa negativa que passar pela frente; use as redes sociais para ser um elemento estressor na vida das pessoas, postando coisa ruim e agressivas dia e noite, associando seu nome, marca e trabalho com algo do qual as pessoas vão querer fugir.

6 - NÃO CONHEÇA SEU CLIENTE

Não procure saber e memorizar o nome do cliente, chame-o de "ô", "amiguinho", "amigão", "colega", "fera"; fale o nome errado da cidade onde está se apresentando; escreva errado o nome das pessoas, empresas e marcas na internet, em documentos, etc; desconsidere totalmente as necessidades, expectativas e problemas do cliente (lembre-se de se colocar sempre em primeiro lugar); jamais adeque sua arte ao seu público alvo, ignore idade, sexo, fatores sociais em geral.

7 - NÃO SEJA CONFIÁVEL

Deixe bem claro para todos que eles não devem confiar em você e faça isso sendo irresponsável, mentiroso, tratante, sem compromisso, atrasando desde o ensaio até a entrega do produto, faltando em eventos, sumindo com o dinheiro do cliente, vendendo uma coisa e entregando outra.

8 - NÃO DEIXE DE ATACAR OS COLEGAS

Aproveite o momento que está com o contratante, com o cliente, com os amigos e com os inimigos para falar mal de todos os grupos, bandas, promotores, empresários e marcas que você conhece em sua região; se você tiver alunos, fale mal de um aluno pra outro, critique tudo e todos pra eles; use as redes sociais pra criticar tudo que puder; estabeleça uma classe superior a qual você pertence e coloque todos os outros na outra classe, a inferior; se você for graduado, ridicularize e invalide o trabalho dos não-graduados; se você não for graduado, faça a mesma coisa com os graduados; jamais apareça num evento de outro artista, não curta e nem compartilhe sua arte; nunca divulgue o evento de outro artista; critique seus mestres.

9 - NÃO INVISTA TEMPO E DINHEIRO

Use seu dinheiro pra tomar cachaça. Não invista em novos e melhores equipamentos, nem em imagem pessoal, nem em aprimoramento artístico e profissional, nem em mídia, nem em layout, em nada. E faça um favor, mande vídeos e fotos toscas, de uma arte meia boca, para possíveis patrocinadores, assim construindo uma imagem negativa junto a eles que dificilmente vai superar no futuro.


10 - NÃO TENHA HABILIDADES EM VENDAS, MARKETING E PSICOLOGIA

Você é um artista revolucionário e vive num mundo mágico da sua genial imaginação, por isso não aprenda técnicas de atendimento ao cliente, nem de como vender seu trabalho; faça divulgações de qualquer jeito; mande as técnicas psicológicas embora, pois você é o cara e o governo ou as empresas têm que te bancar; e tem mais uma, você não precisa saber vender, pois só as pessoas superiores reconhecerão o valor da sua arte; elas vão te prestigiar, os demais você nem faz questão.

É isso. Aplique esses 10 passos todos os dias da sua vida, em qualquer contexto, e você nunca viverá de arte. Você tem algumas dessas características? Bora mudar? Caso queira ter sucesso em sua carreira, basta imprimir esse artigo, colar na parede e todo dia agir exatamente ao contrário de cada uma dessas dicas. Gostou? Comente mais dicas para se dar mal, compartilhe à vontade. Abraço do Mau!!!


* Maurício Mendonça é baterista desde 97, professor de bateria e bacharel em Psicologia. Já atuou como ator, animador de festas infantis, iluminador, sonoplasta e vendedor.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

O ESTUDO DA MÚSICA E O AUMENTO DA CONCENTRAÇÃO


Por Maurício Mendonça*


     A música em si traz ganhos únicos para a alma, enquanto expressão artística de ideias, sentimentos, sensações e intuições humanas. Também é uma das raras atividades estimuladoras da quase totalidade do cérebro. A bateria, especificamente, é praticamente um esporte e estimula movimentos de quase todos os membros e grupos musculares do nosso corpo. Sempre digo aos meus alunos que a bateria deveria ser considerada esporte olímpico! Brincadeiras à parte, o estudo da música também traz benefícios psicológicos significativos e, em comemoração ao 04 de Junho, Dia Nacional do Ensino da Música, escreverei sobre um deles: o aumento da concentração. Para tal, usarei o meu instrumento, a bateria, como exemplo.
               
        A quantidade enorme de estímulos e obrigações do nosso dia à dia gera uma fragmentação da atenção que nos "rouba" contato com o aqui-e-agora.

       Pra piorar, a forma como usamos celulares, tablets e redes sociais têm contribuído muito para esse problema. A bateria, ao contrário, trabalha o uso dos membros corporais e exige tamanha atenção para o aprendizado e correta execução dos exercícios que funciona quase como uma prática zen de desenvolvimento da atenção plena (capacidade de concentração inabalável no aqui-e-agora). A distração comumente faz o aluno errar o que está tentando tocar, assim, ele experimenta e aprende de modo prático (não só verbal) que a lição exige foco total. À medida que ele obtém sucesso, a correta execução do exercício funciona como um reforçador positivo (ganho) da concentração, fortalecendo-a. A tendência, portanto, é que sua capacidade de concentração aumente e se generalize para outras áreas da sua vida. Isso, é claro, vale também para os outros instrumentos.

      Um exemplo de dificuldade de concentração. Tive um aluno que sempre errava os exercícios lá pela terceira repetição. Tocava e parava, sem constância. Isso acontecia com todo exercício, mas não por falta de habilidade. 
    
     O conhecimento psicológico me possibilitou perceber que o erro funcionava como uma estratégia comportamental (nem sempre consciente) de interrupção do treino.

Observando o aluno enquanto ele tocava, vi que seu olhar não parava; ele movimentava a cabeça para todas as direções. Não estava concentrado, pra dizer o mínimo. Para resolver a situação, estipulei um número mínimo de repetições que ele deveria executar sem parar antes de poder avançar para um novo exercício. Assim, o novo exercício seria o reforço positivo da concentração. O aluno impaciente sempre quer avançar, ainda que tropeçando, então estipular regras educa o comportamento ansioso, reforçando o foco e gerando paciência. Com poucas aulas ele passou não só a tocar os exercícios sem interrupções, como passou a errar menos e tem avançado de modo mais rápido, pois está mais concentrado.

    Num caso assim, o professor pode tomar o problema pra si, achando que sua aula é chata, ou que não é um bom professor;

ou pode ver o aluno como um problema, desenvolvendo uma antipatia por ele e afetando negativamente o relacionamento com o mesmo e com o trabalho. Pior ainda, o aluno e os pais podem agir assim. Aí é preciso levar em conta que a atenção e a concentração são em parte inatas, mas em parte maior são habilidades aprendidas e desenvolvidas ao longo da nossa vida. Antes do aluno de música chegar até o educador ele já passou por milhares de experiências em sua vida e desenvolveu comportamentos que podem facilitar ou dificultar o seu trabalho. A concentração é um desses comportamentos.

     Quando o aluno não aprendeu a se concentrar de modo adequado, a missão do educador é ensinar e fortalecer essa nova habilidade, contudo, para isso, precisa da parceira do estudante e dos pais.

  A música figura como uma das melhores ferramentas para desenvolvimento de várias habilidades psicológicas.

A prova disso é o fato de muitos psicólogos usarem a música em seus consultórios para desenvolver a atenção, concentração, memória, melhorar o aprendizado, trabalhar conteúdos emocionais, etc. Ouvir, entender, aprender e executar uma frase musical, por mais simples que seja, exige atenção e, por isso, funciona como um excelente treino de manutenção da concentração. Indico que o educador, sempre que possível, converse com o aluno e com os pais, de modo leve e positivo (nunca estigmatizando), desenvolvendo neles a consciência à respeito de habilidades que necessitam aprimoramento. Novamente, estudar música não só exige, como desenvolve a concentração.

*Maurício Mendonça é professor de bateria, instrumento que toca desde 1997, e bacharel em Psicologia.

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