Por Maurício Mendonça*
A quantidade enorme de estímulos e obrigações do nosso dia à dia gera uma fragmentação da atenção que nos "rouba" contato com o aqui-e-agora.
Pra piorar, a forma como usamos celulares, tablets e redes sociais têm contribuído muito para esse problema. A bateria, ao contrário, trabalha o uso dos membros corporais e exige tamanha atenção para o aprendizado e correta execução dos exercícios que funciona quase como uma prática zen de desenvolvimento da atenção plena (capacidade de concentração inabalável no aqui-e-agora). A distração comumente faz o aluno errar o que está tentando tocar, assim, ele experimenta e aprende de modo prático (não só verbal) que a lição exige foco total. À medida que ele obtém sucesso, a correta execução do exercício funciona como um reforçador positivo (ganho) da concentração, fortalecendo-a. A tendência, portanto, é que sua capacidade de concentração aumente e se generalize para outras áreas da sua vida. Isso, é claro, vale também para os outros instrumentos.
Um exemplo de dificuldade de concentração. Tive um aluno que sempre errava os exercícios lá pela terceira repetição. Tocava e parava, sem constância. Isso acontecia com todo exercício, mas não por falta de habilidade.
O conhecimento psicológico me possibilitou perceber que o erro funcionava como uma estratégia comportamental (nem sempre consciente) de interrupção do treino.
Observando o aluno enquanto ele tocava, vi que seu olhar não parava; ele movimentava a cabeça para todas as direções. Não estava concentrado, pra dizer o mínimo. Para resolver a situação, estipulei um número mínimo de repetições que ele deveria executar sem parar antes de poder avançar para um novo exercício. Assim, o novo exercício seria o reforço positivo da concentração. O aluno impaciente sempre quer avançar, ainda que tropeçando, então estipular regras educa o comportamento ansioso, reforçando o foco e gerando paciência. Com poucas aulas ele passou não só a tocar os exercícios sem interrupções, como passou a errar menos e tem avançado de modo mais rápido, pois está mais concentrado.
Num caso assim, o professor pode tomar o problema pra si, achando que sua aula é chata, ou que não é um bom professor;
ou pode ver o aluno como um problema, desenvolvendo uma antipatia por ele e afetando negativamente o relacionamento com o mesmo e com o trabalho. Pior ainda, o aluno e os pais podem agir assim. Aí é preciso levar em conta que a atenção e a concentração são em parte inatas, mas em parte maior são habilidades aprendidas e desenvolvidas ao longo da nossa vida. Antes do aluno de música chegar até o educador ele já passou por milhares de experiências em sua vida e desenvolveu comportamentos que podem facilitar ou dificultar o seu trabalho. A concentração é um desses comportamentos.
Quando o aluno não aprendeu a se concentrar de modo adequado, a missão do educador é ensinar e fortalecer essa nova habilidade, contudo, para isso, precisa da parceira do estudante e dos pais.
A música figura como uma das melhores ferramentas para desenvolvimento de várias habilidades psicológicas.
A prova disso é o fato de muitos psicólogos usarem a música em seus consultórios para desenvolver a atenção, concentração, memória, melhorar o aprendizado, trabalhar conteúdos emocionais, etc. Ouvir, entender, aprender e executar uma frase musical, por mais simples que seja, exige atenção e, por isso, funciona como um excelente treino de manutenção da concentração. Indico que o educador, sempre que possível, converse com o aluno e com os pais, de modo leve e positivo (nunca estigmatizando), desenvolvendo neles a consciência à respeito de habilidades que necessitam aprimoramento. Novamente, estudar música não só exige, como desenvolve a concentração.
*Maurício Mendonça é professor de bateria, instrumento que toca desde 1997, e bacharel em Psicologia.
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