quarta-feira, 18 de março de 2015

Cuidado com o excesso de diálogo no relacionamento



CUIDADO COM O EXCESSO DE DIÁLOGO NO RELACIONAMENTO

por Maurício Mendonça





  Ele é remédio largamente receitado como cura para quase todos os males das relações amorosas. Ele é pai das famosas "D.Rs", as discussões de relacionamento. Ajuda em muitos casos, mas piora gravemente as coisas em muitos outros. O diálogo possui efeitos colaterais, a maioria deles ignorados pelas pessoas. Assim, ao invés de salvar a relação, comumente é responsável pela sua ruína.

  Ele corrói a relação quando representa uma tentativa de domínio racional sobre questões sentimentais. É quando se tenta tudo entender, tudo explicar, tudo justificar. A vida em comum deixa de ser vivida no plano real, com erros e acertos, passando a ser vivenciada no plano ideal, onde tudo tem que ser perfeito e racional. Vale comunicar aos casais que eminentes filósofos e cientistas de todas as eras têm falhado na tentativa de entender e explicar o amor à luz unilateral da razão.

  O diálogo excessivo põe para rodar a máquina da censura. Tudo passa a ser observado, anotado e apontado. A cada passo, surge uma crítica. Questionamentos e explicações intermináveis tornam cada momento do casal a ocasião do sermão, da palestra punitiva. Os diálogos que aconteciam durante o almoço, se alastram para as demais refeições. As discussões que aconteciam em casa ganham as asas do hábito, reproduzindo-se na residência dos amigos, dos familiares, nos espaços públicos.

  O que representava tentativa de resolver dificuldades, torna-se o problema. As palavras tornam-se cada vez mais ásperas, segredos e falhas alheias viram armas na intenção de ferir. O respeito faz as malas. O contato carinhoso diminui. As expressões de afeto se tornam raras. A briga vira única forma de comunhão. O sentimento amoroso acanha-se no canto da relação, castigado pelas imposições da razão, violentado pelo ideal de perfeição, negligenciado pela expressão autêntica. E aí, o diálogo excessivo atinge seu objetivo máximo como fuga da realidade: o fim do relacionamento.

  É fuga se o predomínio da razão busca afastar o contato com os próprios sentimentos, modificando-os, invalidando sua expressão genuína através do discurso. Quantas vezes o grito de ódio esconde o pedido de abraço! É fuga quando a voz do diálogo cala a voz do coração. O que deveria ser um remédio, transforma-se em veneno se nos tira o contato com a realidade. Muitas vezes o silêncio, a observação, o contato olho no olho, o beijo, o abraço, o choro, muitas vezes é melhor viver a relação, fazendo o que precisa ser feito, do que discutir sobre ela. "Nada em demasia", diziam os gregos.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

COMO A CRIANÇA APRENDE A SER BIRRENTA



COMO A CRIANÇA APRENDE A SER BIRRENTA




por Maurício Mendonça




  "Coitada! Os moleques com esse nome que ela escolheu são terríveis". Já ouviu isso antes? Quando a criança é "difícil", surgem explicações e conselhos de todos os tipos: nome, mau olhado, temperamento, ansiedade, distúrbio mental, hiperatividade, obsessão; aí mandam benzer, medicar, castigar, etc. Sobram receitas. Tem cada uma! O que falta, muitas vezes, é um detalhe bem simples: observação e modificação das consequências geradas pelo comportamento da criança.

  O bebê acordou faminto e sozinho em seu quarto. Resmungou. Ficou em pezinho e murmurou. Lá de longe o familiar, cansado, resolve esperar pra ver se o nenê volta a dormir. A criança começa a chorar. Aos berros, vê alguém chegando cheio de mimos. O que o bebê aprendeu? Que o único comportamento que gera a consequência "atenção" é o de berrar. Na próxima, não perde tempo, já acorda com o volume máximo.

  A menininha chega ao mercado e pede aquele alimento caro e venenoso que o familiar não aceita comprar. No entanto, a menina traz do berço a sabedoria: persistir é o segredo da vida. Pede, repete, se descontrola, deita no chão, rola, começa a gritar. Quando a mãe percebe que até os produtos das prateleiras estão olhando pra ela, desiste de ameaçar mil castigos e entrega o alimento que a criança "pediu". O que a menina aprendeu? Que no extremo do escândalo a mãe cede. Sucesso. Na próxima, não perde tempo, vai direto ao chão, quer dizer, ao ponto.

  Nosso comportamento é instalado e mantido pelas consequências que produzem durante nossa relação com o ambiente. Quando dá certo, tem a probabilidade de voltar a ocorrer aumentada. Simples. Muita gente sabe disso, mas acredita que se o comportamento tiver uma consequência ruim (punição) ele deixará de ocorrer. Grave engano. A bomba atômica impediu de haver guerra no mundo? Não. Criou uma corrida nuclear. A ressaca faz alguém parar de ingerir álcool? Só por um dia. O comportamento inadequado só deixa de existir quando não tem nenhuma consequência. No entanto, somos especialistas em dar atenção ao comportamento "problema", ignorando o adequado - vide mídia. O que fazer, então? Reforçar o comportamento desejado. A birra nada mais é que um comportamento aprendido. Ensine, valorize e recompense o comportamento adequado. 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015



PARE DE TREINAR PARA PERDER

por, Maurício Mendonça






  Não há o que estranhar, é fato conhecido o exorbitante número de pessoas que treinam com o objetivo de perder. Elas planejam, traçam metas, se organizam e fazem de tudo para perder peso, colesterol, reduzir o estresse, combater a insônia, abandonar o sedentarismo, etc. São vários objetivos, mas a ênfase é a mesma: perder. Ponto comum entre aqueles que desistem da luta no meio do caminho. Esta é uma das bases da motivação e tem efeito curto, ao contrário da sua rival, a ênfase em ganhar. 

  Nosso comportamento é instalado e mantido em função das nossas relações com o ambiente e das suas consequências, especialmente duas: obter algo bom, afastar algo ruim. Esses dois tipos de comportamentos tendem a se repetir quando eficazes, mas de formas muito diferentes. 

  Imaginemos dois exemplos: 1) completada sua primeira maratona de revesamento, Paulo ganhou bem estar, auto-confiança, elogios e muito carinho, assim, intensificou a prática; 2) Pedro engordou um bocado no fim de ano, por isso voltou a treinar. Paulo comporta-se em função de ganhos positivos. Pedro, por sua vez, comporta-se em função de afastar algo negativo.

  Paulo seguirá adiante. Pedro não. Por que? Ao gerar algo bom, o comportamento é fortalecido. É repetido porque queremos mais daquilo que ele produz. Já o comportamento de afastar algo ruim faz o oposto, enquanto atinge seu objetivo, se enfraquece. Conforme o machucado para de arder, não precisamos mais assoprar. 

  Ocorre o mesmo com a alimentação e a dieta. Apreciadores de comidas saudáveis querem mais todos os dias. Já quem faz dieta se alimenta de modo equilibrado apenas para AFASTAR algo ruim (medidas, colesterol, doença). Ao findar do problema, ainda que parcialmente, a dieta é abandonada.  

  Suponhamos que a meta seja perder 15kg e para isso inicia-se um programa diário de exercícios físicos. A ênfase está em perder. Existe algo ruim que se pretende afastar, os 15kg. A chance da pessoa NÃO conseguir é altíssima. Por que? Porque à medida que ela perde um ou dois kilos o incomodo diminui.  A pessoa começa a se sentir melhor e o comportamento gradualmente deixa de ter função. Simples. Aqui estamos falando da maioria das pessoas que não tem hábito de praticar exercício físico regular, que fazem as famosas promessas de fim de ano, mas que nunca conseguem ir muito longe.

  O que fazer? Mudar a ênfase, a relação, o esquema. Mesmo tendo como meta perder 15 kg, substitua esse objetivo negativo por outro positivo. Estabeleça a meta de redução de peso, mas não se paute por ela. Na verdade, esqueça de "perder peso". Crie e se guie por meta positiva de, por exemplo, correr X km por treino/semana, ou de completar um revesamento, de encontrar novos amigos. A ênfase se torna ganhar, conquistar, vencer, criar algo bom. O tipo de comportamento que gera e é fortalecido por consequências positivas. Já pensou na razão de distribuírem medalhas para todos os participantes de maratonas? Quando gostar do sabor do êxito, vai querer mais. A chance de continuar praticando exercício físico aumentará muito e, consequentemente, a redução de peso também virá. Não treine para perder. Treine para ganhar.