por Maurício Mendonça
Como se fossem os planetas da nossa constelação ao redor do sol, bolinhas coloridas orbitam o olhar do malabarista. Precisão, ritmo, leveza em cada movimento. Do outro lado, um universo de pequenas esferas encantadas, crianças alegres brilhando como estrelas no céu. O malabares parece uma simples brincadeira e, em verdade, o é. No entanto, assim como muitas coisas da vida esta simplicidade aparente "esconde" algo profundo e complexo. Todos podem ter acesso a isso, basta brincar.
Monges e psicólogos de certas escolas, como o Zen-Budismo e a Terapia Comportamental de Aceitação e Compromisso (ACT), apontam alguns problemas do ser humano como frutos da sua desconexão com o aqui-e-agora. A turbulência do mundo leva indivíduos e grupos a viverem num mundo mental, de lembranças e planos, de pensamentos e emoções sem fim. Longe do real, perdem o momento, a noção do tempo e espaço, deixam passar a oportunidade de transformação. A saída? Malabares.
Teatro e Circo comungam o efêmero. Nunca são os mesmos se registrados, narrados, ou gravados. Eles são fenômenos do aqui-e-agora. O malabarista é o artista deste instante único no cosmos. Cada bolinha girando diante dos seus olhos expressa a dinâmica da vida assim como dizia o filósofo grego, Heráclito de Éfeso: nada permanece, exceto a mudança; a vida é movimento.
Cada criança, naturalmente sábia, observa e vive atentamente aquele instante. Sua cabeça não está no jantar, nem nas tarefas escolares do dia seguinte, tampouco nas metas pro futuro. Sua atenção é plena. Assim como a consciência do malabarista.
Para viver o momento, é preciso desconectar dos julgamentos, do mentalismo tão habitual. É necessário estar inteiro no aqui-e-agora. Quando se está aprendendo malabares, é possível notar, um simples pensar, um breve desvio do momento faz o tempo da bola passar despercebido...ela foge, rolando pelo chão. Desapercebido, vivendo na bolha mental, o ser perde muito daquilo oferecido pela impermanência.
Assim é a vida. Paradoxalmente, simples e complexa. Sabemos, os momentos desperdiçados nunca mais retornarão. Mas como evitar? Basta brincar. É brincando, pleno em atenção, livre das amarras mentais, que se vive a vida com profundidade, aqui-e-agora. Quem imaginaria que por trás de um simples malabares circense estaria o mesmo conceito da meditação e daquelas técnicas psicológicas consideradas hoje as mais modernas e eficazes no tratamento de diversas questões!? Basta brincar, basta agir. Permita-se, torne-se presente.
